Como atuar de verdade nos territórios?

Nossa primeira experiência de mostra física do Saúde é Meu Lugar foi com uma participação em um evento que aconteceu no Rio, na Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz) entre os dias 15 e 19 de maio: o XII Ciclo de Debates – conversando sobre a Estratégia Saúde da Família. 

Apesar de ser um evento aberto, ele teve como principal público os alunos e professores da Residência Multiprofissional em Saúde da Família da Escola. Enquanto as manhãs foram ocupadas pelas atividades próprias do Ciclo, as discussões das tardes foram organizadas pelos residentes e pela nossa equipe, em conjunto, e neste post você pode ter uma ideia do que rolou.

Nas manhãs, cinco grandes temas orientaram os debates: a Política Nacional de Atenção Básica; o contexto político e econômico brasileiro e seu impacto no SUS; a relação entre saúde e movimentos sociais;  a violência nos territórios; e a política de redução de danos.

Falas sobre violência mexeram com público presente

A discussão sobre sobre movimentos sociais foi sem dúvida a que mais mexeu com os residentes, e vários deles expressaram o quanto estavam felizes por estarem diante de uma mesa com presença feminina e negra. A recíproca era verdadeira: “Já estive nessa mesa há dois anos e hoje fico feliz de ver que a residência está mais preta, tem mais gente que se parece com a gente”, disse Raphael Calazans, ex-aluno da Escola Politécnica da Fiocruz que hoje participa do Coletivo Papo Reto, um projeto de comunicação independente no Complexo do Alemão. Ele compôs a mesa junto com André Lima, do Conselho Gestor Intersetorial (CGI) de Manguinhos e do projeto Teias , e Franciele Campos, membro do Fórum Social de Manguinhos e também do CGI.

Saúde, Fiocruz e favelas: como conversam?

André abordou a relação entre a Fiocruz e o território de Manguinhos, onde vive, e disse que a história é marcada por fenômenos similares que acontecem ao longo do tempo: “Hoje a Fiocruz discute a blindagem da Escola Politécnica devido aos tiroteios, falamos muito do contexto violento em que vivemos, mas a década de 1990 foi de muita violência. Em 1994 o diretor da ENSP relatou que servidores e alunos andavam agachados a cada tiroteio, e foi quando se discutiu pela primeira vez a blindagem das salas”, comentou ele, lembrando que também vêm desse período as primeiras experiências de cooperação entre a ENSP e o território. Nos anos 2000, o prédio da ENSP foi blindado.

Ele cobrou uma maior participação dos profissionais da saúde nas questões do território – não apenas na figura institucional da Fiocruz, mas na presença dos trabalhadores que a compõem. “A relação entre a Fiocruz e Manguinhos é desigual, mas quero tirar um pouco o papel da relação com a Fiocruz e dizer que ela é formada por pessoas, pessoas que podem compor. Semanalmente a Fiocruz tem se reunido com Manguinhos para debater a violência, mas a presença de profissionais de saúde é muito pequena”, disse.

Toda essa discussão sobre a participação das instituições e trabalhadores da saúde nas questões das favelas, principalmente a violência, é importante não só porque a violência afeta diretamente os corpos e mentes dos moradores, mas também porque afeta os próprios serviços. Calazans informou que no Complexo do Alemão só houve nove dias sem tiroteios em todo este ano: “Quem atua nas favelas sabe que, quando passa de cinco tiros, fecha o posto e a escola, o ACS não vai pra rua. Como se promove saúde num lugar que tem tiroteio todo dia? Todo mundo fala em crise, em democracia. Parece que o Brasil descobriu agora que não vive numa democracia. Mas a gente, que vive na favela, percebeu isso desde que começou a abrir a boca”, provocou ele. Daí que a resposta ao título dessa postagem, embora seja muito ampla, tem que partir do seguinte ponto: pra atuar de verdade nos territórios é preciso ouvir e entender suas demandas, viver seus conflitos e, é claro, participar da sua luta.

O lugar dos corpos

A fala de Franciele foi permeada por considerações a respeito de como o racismo marca nossas relações e vínculos: “Temos que pensar por que é aceitável que alguns corpos tenham um tratamento diferente na sociedade”, disse ela, que falou também sobre como as violências sofridas por pessoas pobres e moradoras de favelas vão além da violência militarizada, que é a que aparece normalmente: “Se a UPP sair, a gente ainda vai estar fodido aqui dentro por conta da desigualdade social existente.  E mais: quando a PM interfere na sua música e no seu cabelo, isso é mais amplo que a segurança pública. A militarização interfere diretamente em nossas práticas sociais”.

Para tentar ir além dessas descrições e narrações das violências somente, o Fórum Social de Manguinhos vem tentando organizar ações para referenciar espaços marcados pela violência e transformá-los em memoriais. “Estamos presos em diversos tipos de violência, mas o importante é que as nossas narrativas não sejam pautadas por isso, sejam pautadas a partir de outra relação. É o que tentamos construir. É importante o que a gente consegue fazer aqui dentro. Precisamos construir relações aqui, com nossas pessoas trabalhadoras que não têm tempo de viver para além do seu trabalho. E que trabalho? É só ver onde os moradores de Manguinhos atuam dentro da Fiocruz, por exemplo”.

Calazans comentou sobre o momento em que ingressou na instituição – como aluno, aos 14 anos -, e percebeu que o importante não é a Fiocruz blindar seus prédios, mas discutir como “escancarar as portas para Manguinhos”. “Esse é um dos poucos eventos daqui em que dão o microfone na mão de pessoas que normalmente não têm 20 minutos pra falar nada. É muito difícil ser favelado e pobre e sentar aqui em cima. Entrar na Fiocruz sem ser com o roupão da Nova Rio [empresa que contrata trabalhadores responsáveis pela limpeza e jardinagem na Fundação, entre outros serviços]. Quando a Fiocruz tem a mínima sensação de que está mesmo em Manguinhos, blinda as janelas. O mínimo terror, quando é vivenciado em outras peles e pessoas, aí ele tem amplitude. Aí se discute”, criticou.

Os três falaram muito sobre as dificuldades de se participar ativamente dos movimentos sociais quando se é pobre e se mora em favela – são dificuldades materiais, como para se deslocar e encontrar tempo em meio à rotina pesada de trabalho, mas vão além disso: “É difícil pensar em mobilizar pessoas que não acreditam em si mesmas. A gente não consegue acreditar que é capaz de fazer as coisas, de ser agente cidadão em qualquer lugar. Tudo é negado à gente”, disse Fran, que logo na abertura da mesa confessou ser complicado estar naquela posição: “É muito difícil vencer a minha timidez, mas ela é resultado de silenciamento e não posso mais deixar que ninguém me silencie”, afirmou.

A solução que vem da favela

Franciele disse que os movimentos sociais têm conseguido buscar mediações dentro da estrutura do Estado para garantir direitos e coibir abusos, mas o maior apoio é aquele que acontece entre as favelas e suas organizações: “A estrutura de Estado que poderia nos apoiar demora a chegar. O que chega é o apoio dos outros favelados”.

Essa ideia também esteve presente nas outras falas. André afirmou que, nas favelas, os movimentos sociais vêm se destacando nos últimos anos como grandes atores sociais coletivos (bem mais do que as associações de moradores). “O Estado atua de forma vertical, sobreposta e não participativa. A participação é uma conquista, e os direitos colocados na nossa Constituição não foram doados, precisaram e precisam ser conquistados a cada dia”,  disse.

Para Calazans, a solidariedade e a cooperação são duas marcas da favela, e é por meio delas que surgem as soluções nesses territórios. “O tema dos movimentos sociais na favela é especial porque favela é movimento social, desde que existe. Não haveria luz na favela se não fossem os moradores, há 40 anos, carregando poste nas costas. Não haveria escola nem posto de saúde se não fossem os moradores indo pedir por isso coletivamente. Você faz gatonet, gatoluz, lan house pra garantir direitos. Se é difícil andar, constrói beco e inventa mototaxi. Uma cultura pautada na sobrevivência é o primeiro movimento social da favela”, explicou.

Como, nas palavras dele, favela é movimento social, ele acredita que é das favelas que virão as pressões e propostas concretas de mudança. “Em 2013, na Cidade Olímpica, quem pressionou foi a favela: greve de gari, movimentos na Vila Autódromo, Cidade de Deus parando a Linha Amarela, motoristas de ônibus parando a cidade. A conquista dos direitos da favela não vem por pedido, mas por afirmação – direito não se pede, se exige. E o dia em que a favela descer e não for carnaval, vai ser pra transformar isso aqui numa favela, acabar com ônibus caro, com barzinho gourmet, vai ter pagode na rua sem choque de ordem, vai ter camelô e CD pirata, vai ter Fiocruz dando livro e CD, vai ter favelado no auditório, e isso é saúde para muito além da doença. É o que construímos na favela enquanto quilombo: solidariedade.  Tememos a miséria mais que a morte”.

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