Uma pista do que vem por aí

Este mês tivemos a oportunidade de testar o que serão as mostras regionais: bolamos uma pocket mostra – ou minimostra ou projeto-piloto de mostra – como vocês preferirem 🙂 – articulada com o XII Ciclo de Debates – Conversando sobre a Estratégia de Saúde da Família, promovido pela Escola Nacional de Saúde Pública entre os dias 15 e 19 de maio.

Foi muito legal porque pudemos testar várias das coisas que queremos ter nas mostras regionais, e agora já temos uma ideia do quanto elas funcionam. “Ou não”, como dizia o baiano. A dinâmica foi a seguinte: durante as manhãs, acompanhamos a programação regular do Ciclo, que contou com quatro mesas-redondas pra discutir questões importantes para a Atenção Básica no país e, especialmente, no Rio. As discussões foram muito legais e você pode ler mais sobre elas aqui. À tarde, organizamos oficinas e conversas com os residentes da ENSP, apresentamos melhor o nosso projeto e convidamos todo mundo pra enviar suas histórias.

Janete e Katia, agentes comunitárias de saúde, observando as histórias de outros participantes da mostra

Cavaletes com textos e imagens que já fazem parte da nossa mostra online ficaram expostos o tempo todo, e todo mundo parava pra conhecer as histórias. Também foram distribuídos alguns dos nossos brindes, como blocos, imãs de geladeira, adesivos e… bonequinhos do Pinion! Eles fizeram o maior sucesso, e foram presentes especiais dados às pessoas que convidamos para contar suas histórias. Sim! Nessa minimostra tivemos a presença de seis autores – quatro delas enviaram histórias beeem bacanas para a Saúde é Meu Lugar, e outros dois haviam feito em suas páginas e redes sociais relatos que nos chamaram a atenção.

Contadores de histórias

Um dos convidados foi Elmir Mateus, que, além de atuar como técnico na Fiocruz, é ator. Ele fez uma performance artística e, em seguida, leu duas crônicas de sua autoria que tratavam sobre o racismo cotidiano, inclusive nos serviços de saúde. O tema foi desenvolvido nas rodas de conversa que organizamos em seguida com os residentes.

Janilda, Lidia, Janete e Katia compartilhando suas experiências na saúde

Em outra tarde, recebemos as agentes comunitárias de saúde (ACS) Katia Germano e Janete Martins, de Belford Roxo; a dentista Lidia Pereira, que atua no Rio; e a técnica em enfermagem Janilda de Souza, também do Rio. Elas bateram um papo com os residentes sobre seu trabalho nos territórios.

Lidia, que também foi residente na Escola, já tem duas histórias em áudio disponíveis na nossa plataforma. Eles foram apresentados no evento, e ela falou um pouco das suas motivações pra participar: “Amei a oportunidade do Saúde é Meu Lugar, porque mostra nosso trabalho para além dos nossos blogs e facebook, que só têm divulgação entre a gente”, disse ela. Janete falou que, por meio da mostra, consegue de alguma forma participar do trabalho de outras pessoas. “Quero que as pessoas participem também da minha vida, do meu trabalho”, disse. Kátia também se interessou pela troca: “Eu mostro um pouco da minha experiência, ela mostra um pouco a dela, a gente vai vendo o que é o nosso trabalho”.

Janilda – ou Jani, como prefere ser chamada – é autora da história sobre o Boi Carroceiro, e falou sobre a importância de se olhar as coisas de diferentes pontos de vista, pra enxergar as diversas verdades que há nelas. “Adoro contar histórias, não consigo ficar sem abrir a boca. E vi que podia olhar mais, e contar melhor o que estava enxergando. Lembrei do carroceiro, depois da parteira, depois da rezadeira, tanta coisa que tem importância e a gente não vê que é da saúde”.

Jani, contadora de histórias nata, posa junto com seu relato na mostra

Katia e Janete atuam juntas, e contaram que o local em que trabalham tem muitas precariedades. “O trabalho dos ACS é primordial. Primeiro porque nós estamos na ponta e temos o desafio de convencer, mostrar todos os dias aos usuários que é possível mudar a realidade com a Estratégia Saúde da Família. E quando falamos em saúde, não significa só não ter doença, mas engloba também saneamento básico, mostrar os direitos dos usuários, mostrar que eles podem abrir a boca e exigir”, disse Kátia. “Fazemos tudo para ajudar. Muita gente tem medo até de abrir a porta, não sabe quem somos. Então nosso primeiro trabalho é o de conquistar a confiança das pessoas, falar da importância de se cuidar, de cuidar da casa. Às vezes ficamos de mão atadas, porque sabemos que precisamos referenciar, mas não sabemos como vai ser o tratamento às pessoas lá na frente, se vai ser como tratamos aqui atrás. Mas tentamos ajudar ao máximo”, completou Janete.

Lidia trocando experiências com seus colegas residentes

Essa conversa aconteceu no mesmo dia em que, na parte da manhã, se discutiu a relação entre a saúde e os movimentos sociais. Lidia falou sobre a importância de os residentes dialogarem com os territórios onde atuam, e que o debate com os movimentos sociais precisa estar no dia a dia do trabalho. “O que a gente está fazendo como residentes? O que estamos trazendo para as unidades em que trabalhamos? Discutir o território é importante, e discutir território sem o diálogo com os movimentos sociais é impossível”, apontou.

Além do gosto por contar histórias, o prazer de trabalhar pelo SUS também era comum às narradoras, e isso ficou muito claro em tudo o que diziam. Janete, por exemplo, afirmou: “Alguns amigos me perguntam qual o meu plano de saúde, e eu digo que é o SUS, o melhor que existe. Eu sou apaixonada pelo  SUS. Se for bem amarrado, ele funciona”.

Sara

Nossa sexta narradora não é uma trabalhadora formal da saúde, mas com certeza pode ser considerada da área. Sara Moreira é auxiliar de serviços gerais na Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV), que fica ao lado da ENSP, e contou sua história no dia em que se realizou uma mesa redonda sobre violência na região. Uma janela da EPSJV foi recentemente atingida por um tiro, o que logo gerou uma série de debates em toda a Fiocruz sobre a violência na região. Pra quem não sabe, a Fiocruz fica próxima a áreas de intenso conflito, e muitas vezes o comércio, as escolas e os postos de saúde das comunidades do entorno precisam ser fechados devido a tiroteios. Quando aconteceu o episódio da janela alvejada, muitos relatos pipocaram no facebook, expressando ao mesmo tempo horror (pelo tiro) e alívio (porque a sala estava vazia). Sara chamou a atenção para outros aspectos, relacionados à vida cotidiana das pessoas que, como ela, vivem nas comunidades e precisam diariamente sair pra trabalhar, levar e buscar filhos na escola, fazer compras e conviver bem de perto com as várias formas de violência que acontecem nesses locais e que são, em geral, invisibilizadas.

Os residentes ficaram bem felizes pela abertura do diálogo com os narradores, e nós ficamos contentes por termos apresentado a mostra de um jeito legal. O próximo destino é a nossa primeira mostra regional oficial: no mês que vem estaremos em Belo Horizonte para a mostra da região Sudeste. Estamos trabalhando pra que sejam dias de muito aprendizado e contação de histórias. E depois nós é que vamos contar tudinho por aqui 😉

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