Faça o que eu faço

Quem estava na plateia durante a apresentação do Henio Marques e dava uma olhadinha pra trás via uma cena impressionante: tava todo mundo de cara vermelha e olhos molhados, procurando lencinhos e esfregando o nariz. É sério! Henio juntou fotos, vídeos e músicas, falou de como sua vida pessoal se misturou ao seu trabalho como ACS e ainda criou uma metáfora maravilhosa relacionando os muros que às vezes separam trabalhadores na saúde ao muro de Berlin.

Henio é de Serrinha, na Bahia,  atua como ACS há 21 anos e, o tempo todo, procura inventar novos jeitos de passar suas mensagens para a comunidade, porque percebe como é difícil fazer com que as pessoas se interessem pela “mesmice”: “Vejo que elas muitas vezes se preocupam com as ações mais ‘concretas’, como marcar exames e buscar remédios mas, na hora da prevenção e da informação, falta estímulo, algo que prenda a atenção – fica muito na mesmice. Então eu invento: uso carro de som, faço música, crio paródia, levo gincana para as escolas, uso minha própria imagem no meio das campanhas do Ministério da Saúde”, disse ele à nossa equipe.

Ele tem um jeito muito especial pra contar histórias, e foi essa habilidade na construção de narrativas que levou todo mundo às lágrimas. Henio mostrou uma série de fotos de um ACS, enquanto contava pra plateia a história daquele trabalhador: era um agente obeso, muito criticado pelos usuários porque, como promovia saúde, deveria seguir ele mesmo as orientações que pregava. O ACS começou a adotar as recomendações que ele mesmo dava pros outros, perdeu 40kg, ganhou mais saúde e a confiança da comunidade. As fotos acompanhavam a narração e, no fim da história, a última foto mostrava… o próprio Henio! “Esse ACS sou eu, e eu vi o quanto é importante que minha própria vida reflita o que eu quero passar no meu trabalho”, disse ele.

Outra reflexão importantíssima foi sobre a distância entre trabalhadores de diferentes níveis nas equipes de saúde da família, o que, aliás, foi apontado por outros narradores da mostra. O agente enfatizou o quanto é preciso que auxiliares, técnicos e profissionais de nível superior se escutem e encontrem maneiras de potencializar o que têm de melhor.

Henio foi disparador de debates na roda sobre Educação Permanente em Saúde. Nela, esteve presente um tema que praticamente alinhavou todo o evento: a necessidade de os espaços de construção de políticas e de formação ouvirem os profissionais da ponta e os usuários. “É impossível pensar o SUS – em seus princípios, como aposta de cidadania e de diminuição da desigualdade – de maneira burocratizada, um SUS hierarquizado e normativo, sem escuta com o outro”, disse Laura Feuerwerker, docente da Faculdade de Saúde Pública da USP que participou da roda, completando: “Não dá para cuidar sem saber quem aquela pessoa é, onde mora, qual a situação de vida – cada um é produzido por múltiplos planos e o corpo responde de modos diferentes. É preciso aprender dos usuários o que eles vêem para aprender a produzir sentidos de cuidado. Profissionais de saúde às vezes  acham que sabe como o outro deve viver, normatizam seu cotidiano e não criam oportunidade de encontro para cuidados. A Atenção Básica, às vezes, vira uma trincheira”.

Outra participante, Rita dos Reis e Souza, falou sobre uma boa experiência, no sentido de se ouvir a “ponta”, no município de Patos de Minas, onde atua como referência de EPS: “Fazemos rodas de conversa com os profissionais da ponta e com os usuários. As mudanças, em vez de virem como imposição e demanda da secretaria de saúde, vêm das rodas e das relações entre profissionais e seus territórios”, contou. Essa também foi a tônica de Patrícia Braga, professora da Universidade Federal de São João del Rey/MG, que falou sobre o diálogo entre professores, trabalhadores da saúde e adolescentes para viabilizar a criação de um material voltado para a saúde desse público.

Para o nosso contador de histórias convidado, ficou uma alegria muito grande por poder compartilhar suas experiências e motivar bons debates: “Foi perfeito. Já participei de outras mostras, mas essa foi especial, porque senti que ajudei a construí-la: enviei minhas histórias, palestrei, opinei, as pessoas me ouviram e se importaram com o que eu falei.  Aqueles momentos me marcaram, como uma tatuagem. Eu voltaria no tempo para poder participar de novo”.

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