“Meu objeto não é o dente, é a pessoa”

Lídia Pereira já é velha conhecida nossa 🙂 Ela havia estado conosco na minimostra do Rio de Janeiro e, em BH, contou novamente suas histórias para a plateia. Cirurgiã-dentista e aluna da residência da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz), ela levou dois relatos que falam do trabalho em rede e da importância de um olhar integral, que veja a saúde para além da doença. Você pode ouvi-los aqui e aqui.

Para Lídia, o trabalho vai muito além do consultório

Para Lídia, o evento foi um “refrigério na alma” <3 “Poder conversar com outros profissionais sobre formação em rede é muito bom, poder tensionar, instigar, falar sobre formação e repensar as necessidades… É maravilhoso ver que tem mais gente pensando fora da caixinha”, disse ela à nossa equipe, depois do evento.

Mas os momentos presenciais não são os únicos importantes: Lídia também disse que a mostra online é essencial no momento que o SUS atravessa hoje. “Está difícil trabalhar no SUS no contexto atual, e a gente tem que divulgar nosso trabalho em todos os espaços possíveis e legítimos. Assim, podemos mostrar que o trabalho existe e que ele é bom, é de qualidade, que não se encontra um trabalho como o nosso no ambiente privado. Trazer isso à luz da sociedade é crucial”, pontuou.

Lídia acredita nos princípios e diretrizes do SUS e sabe que saúde é muito mais que a não-doença. Por isso, apesar das dificuldades cotidianas, ela encontra muito gás pra atuar no sistema: “O SUS é apaixonante. Não tem como não se entusiasmar com as políticas, não tem como não se mobilizar pensando que você pode, sim, mudar o mundo. Trabalhei no setor privado só por três meses, mas não é pra mim. Eu sou centrada no cuidado, e não no procedimento… Meu objeto não é o dente, é a pessoa. Trabalhar para o SUS é trabalhar pra construir a sociedade em que eu acredito. Pensamos em mais do que necessidades diretas de saúde, pensamos nos serviços de maneira ampliada, no saneamento básico, na escola, no acesso à água fluoretada… ”. Também é apaixonante ouvir essas palavras, né?

As histórias que ela contou tinham muito a ver com o tema da roda em que estava inserida: Formação em rede. O diálogo fluiu bem, com a participação de Sheila Cruz, diretora da ETSUS Vitória/ES e Roberta Gondim, professora da ENSP/Fiocruz (e com intervenções da plateia, é claro).

Sheila, que é enfermeira por formação, falou um pouco sobre a história da conformação da atenção em rede no município de Vitória, e sobre como ela própria aprendeu que o cuidado se estende para além dos hospitais, quando descobriu a Estratégia Saúde da Família. Já Roberta se dedicou ao conceito de rede na formação, propriamente. Ela contou como a ENSP começou a oferecer cursos descentralizados na década de 1980, e esse foi o começo da história da RedEscola, que hoje busca fortalecer a atuação em rede de Escolas e centros formadores em saúde pública no Brasil. Mas, para Roberta, é preciso ter em conta que não se pode falar de rede de formação descolada de rede de atenção, de vigilância, de humanização…

A avaliação que Lídia fez do evento foi muito positiva, tanto pela troca de experiências entre profissionais como pelo contato entre a galera da ponta e pesquisadores: “É muito interessante mostrar e problematizar essas experiências em ambientes mais acadêmicos. Muitas vezes a academia está distante do território e das práticas, então é legal a gente tensionar a academia, gerar essa mobilização em torno das discussões sobre território e, especialmente, sobre o modelo atual de atenção no território”, disse, tecendo algumas críticas: “Em alguns momentos, ele sufoca o trabalhador. É difícil fazer clínica ampliada em um modelo que privilegia números em vez de cuidados”.

Ela trouxe também uma sugestão que a gente acha fundamental: para Lídia, seria ótimo que mais usuários participassem das próximas mostras regionais, tanto para que coloquem suas questões quanto para que ouçam o que os trabalhadores têm a dizer. “Não dá pra pensar em SUS sem falar de sociedade, e a sociedade tem que ver o quanto o sistema é importante. Não pode abrir mão dele”, disse. Reforçamos a sugestão, que é também um convite: as mostras serão sempre abertas ao público. Se você não trabalha no SUS mas é usuário, a mostra também é pra você, ok?

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