Contar o quê? E como?

Na verdadeira Narração, a mão intervém decisivamente, com seus gestos, aprendidos na experiência do trabalho, que sustentam de cem maneiras o fluxo do que é dito. A antiga coordenação da alma, do olhar e da mão é típica do artesão, e é ela que encontramos sempre, onde quer que a arte de narrar seja praticada. Podemos ir mais longe e perguntar se a relação entre o narrador e sua matéria – a vida humana – não seria ela própria uma relação artesanal. Não seria sua tarefa trabalhar a matéria-prima da experiência – a sua e a dos outros – transformando-a num produto sólido, útil e único?

Walter Benjamin

 

A mostra Saúde é Meu Lugar quer algo relativamente simples: que as pessoas contem suas histórias de trabalho em saúde nos territórios. Não é pra escrever relatórios, dados de pesquisas, cálculos, metas, objetivos alcançados, números nem nada do tipo. As formas aceitas para o envio dos relatos deixa isso bem claro – pode mandar texto curto, áudio, vídeo, foto isolada, e pode mandar no site, por email, por zap.

Isso porque o interesse aqui não é descrever academicamente os processos, mas passar adiante histórias que se constróem por meio da experiência, que são importantes para as pessoas, que ensinam algo, que vale a pena passar adiante, discutir e multiplicar.

É uma ideia de narrativa que se encaixa muito bem com o que defendeu o filósofo alemão Walter Benjamin em 1936, em ‘O narrador’. De acordo com ele, apesar das novas formas de comunicação – na verdade, por causa delas –, a “arte de narrar está em vias de extinção” e “são cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente”.

Parece uma afirmação estranha, mas é que, para Benjamin, narrar não é apenas contar alguma coisa… É um ato relacionado à “faculdade de intercambiar experiências” e que tem sempre uma utilidade: oferecer conselhos, ensinamentos, sugestões práticas (como nos contos de fadas). Era bem isso que tínhamos em mente quando começamos a pensar a mostra e formular o tipo de convite que queríamos fazer: mostra pra gente o que o seu trabalho te ensina, o que você quer passar adiante, o que outras pessoas podem aprender com você.

O narrador é, assim, alguém que sabe dar conselhos – não no sentido de “responder a uma pergunta”, e sim de “fazer uma sugestão sobre a continuação da história que está sendo narrada”. Nesse sentido, a narrativa não se fecha em si mesma, mas supõe sua própria continuação. Isso também está totalmente de acordo com a proposta do Saúde É Meu Lugar. Expostas permanentemente na mostra online, as histórias contadas poderão não só aconselhar as pessoas como também receber palpites nas diversas redes sociais, o que pode ajudar a melhorar as práticas. Além disso, a curadoria vai colocar lado a lado algumas delas, sugerindo e construindo muitas novas narrativas. Assim como diz Benjamin, “uma história se articula na outra, como demonstraram todos os outros narradores, principalmente os orientais. Em cada um deles vive uma Scherazade, que imagina uma nova história em cada passagem da história que está contando”.

O autor acredita que a extinção da narrativa está ligado ao aparecimento do romance moderno e daquilo que ele que chama de ‘informação’, referindo-se no texto ao desenvolvimento da imprensa. No primeiro caso, porque a essência do romance não é mais a experiência, mas o indivíduo isolado, “que não recebe conselhos nem sabe dá-los”. No segundo, porque “metade da arte narrativa está em evitar explicações”, enquanto “a informação aspira a uma verificação imediata”, precisa ser plausível e não pode recorrer ao “miraculoso”, como a narrativa frequentemente faz.

Acreditamos que, assim como ocorre na imprensa, a produção acadêmica massiva na Saúde Pública ajuda a minguar as narrativas na área. O que estamos buscando com a mostra não é apenas a descrição dos fatos, mas algo um pouco mais próximo do termo em alemão usado por Benjamin: o verbo ‘darstellen’ traz o sentido de apresentar, mostrar, exibir, erigir à vista de todos.

Na mostra, queremos mais a artesania da narrativa e menos a exatidão e o isolamento da informação. Queremos dar espaço para as relações, para as situações vividas nos territórios e experienciadas por meio dos sentidos, queremos ver e mostrar histórias que encantem, que façam refletir, que ensinem e surpreendam. Se quiser ler mais sobre o texto de Benjamin, dá uma olhada nesse arquivo que produzimos sobre ele.

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