“Foi uma mostra-semente”

Depois da Bahia e do Rio de Janeiro, foi a vez de o Rio Grande do Sul ter uma mostra Saúde É Meu Lugar pra chamar de sua. E foi grande, hein?

A dedicação da equipe e dos residentes da Escola de Saúde Pública do Estado do Rio Grande do Sul (ESP-RS) fez com que a mostra se tornasse um superevento, com dois dias de duração, 400 presentes, várias rodas de debate, painéis, cinema, teatro e até reiki. Uau!

Tudo aconteceu nos dias 28 e 29 de setembro, em Porto Alegre, nos espaços da ESP e na Escola Técnica. Teve cobertura em tempo real nas mídias sociais (estamos no facebook, no twitter e no instagram, e a Escola também fez várias postagens) e, agora, vamos registrar aqui um resumão do que rolou.

Muitos corações

A organização não ficou só nas mãos da equipe da Escola e muito menos na nossa – a gente só deu aquele apoio básico. Na verdade, a mostra foi feita por “muitas mãos, mentes e corações”, como disse Fátima Plein, professora da ESP que faz parte do Grupo de Condução da RedEscola e esteve em um contato muito direto com a gente durante os preparativos. Os residentes vestiram a camisa do Saúde É Meu Lugar (mesmo) e propuseram e organizaram boa parte da programação. Eles foram fundamentais, por exemplo, para a construção das rodas de conversa, que tiveram temas tão atuais quanto importantes: teve saúde mental, questões de gênero, comunicação em saúde, suicídio, vigilância, a nova PNAB e muito mais.

A mostra aconteceu junto com a conclusão de três turmas do curso de Educação Popular em Saúde, então esse também foi um assunto muito presente. Na verdade, foi a galera da EdPopSUS que deu um colorido bem especial pro lugar: foi um festival de cirandas, rodas, fuxicos, barraquinhas, música… Olha uma palhinha nesse vídeo! Uma das coisas mais legais foi a circulação de uma carta aberta, escrita por uma das turmas. O texto denuncia o momento político atual e enfatiza o papel da educação popular como prática de intervenção e humanização no SUS, como forma de evidenciar as contradições do mundo e “retotalizar” os sujeitos. Emocionante.

Revisão da PNAB

A revisão na PNAB rendeu muito, como não poderia deixar de ser. O tema esteve no centro de um painel e uma roda, e é alvo da preocupação de todo mundo.  “Precisamos falar sobre isso, porque o papel do sanitarista está diretamente ligado a essa política. Numa primeira leitura desatenta, é difícil perceber a mudança, mas há detalhes que modificam todo o quadro, todo o processo. A nova PNAB cria modelos diferentes do da Saúde da Família, permitindo e financiando equipes sem agente comunitário de saúde, com médico atuando por 10 horas semanais. Perdemos o vínculo, o tempo com aquelas famílias”, criticou Janaína Paschoale, enfermeira presente à mostra, que alertou: “Já temos um exemplo de desmonte no nosso município, Porto Alegre. Nosso secretário de saúde foi apresentar o plano municipal de saúde, falou por 20 minutos e três termos estiveram totalmente ausentes da sua fala: SUS, ACS e território. Imaginem o que isso significa. E isso em um município grande, com uma estrutura de saúde já grande e funcionante”.

Sexualidade e acolhimento: muitos desafios

A temática LGBT também permeou boa parte de encontro. Todo mundo soube do que aconteceu com a exposição Queermuseum, que estava em cartaz em um museu de Porto Alegre e foi cancelada no início do mês… Pois então, a polêmica ainda estava bem quente e as relações entre gênero, sexualidade e saúde estiveram presentes na mostra. Um dos pontos altos foi o cinedebate organizado em torno do documentário Amanda e Monick, sobre as  vivências de duas pessoas trans. Depois do filme, uma conversa foi mediada por Guilherme Ferreira, assistente social que pesquisa gênero – o debate partiu da apresentação de diversas situações reais, passadas nos serviços de saúde pela população LGBT. “Foi muito interessante, pudemos conversar de maneira tranquila sobre essa questão, que incide na vida de pessoas que muitas vezes não são acolhidas nos serviços de saúde da maneira que precisam”, disse ele à nossa equipe.

O documentário Amanda e Monick gerou um debate pra lá de importante

A relação entre políticas públicas de saúde e a população LGBT também esteve no centro de uma outra roda, conduzida pelo psiquiatra João Alves Neto. “Muito tempo da vida dessas pessoas fica marcado por grandes sofrimentos, por dificuldades tanto individuais como familiares e sociais e até mesmo por transtornos mentais, de certa forma estimulados por essas dificuldades”, disse ele, completando: “Foi importante trazer essa temática para a roda e pensá-la a partir da construção das práticas no nosso dia a dia profissional. O grupo conseguiu vislumbrar pontos importantes para se chegar em um lugar mais ideal de construção de vida”.

O riso sempre dando as caras nas nossas mostras (que bom!)

A relação entre a saúde e boas risadas tá ficando cada vez mais óbvia pra gente. Em Porto Alegre, teve uma roda de conversa maravilhosa sobre saúde mental… Com palhaçaria <3 Quem conduziu foi a Rita Barboza, psicóloga & palhaça que atua no Núcleo de Estudos e Intervenções de Palhaço – esse grupo faz intervenções pela cidade toda, principalmente nos ambientes de saúde, saúde mental e educação.

Bora rir?

Ainda na saúde mental, teve também uma peça de teatro bem bacana. A ideia foi da assistente social Cássia Pilar e da psicóloga Bia Borges, residentes em Atenção Básica lá na ESP. Elas já trabalhavam com Teatro do Oprimido, que é uma forma de fazer teatro em que os espectadores não são só espectadores: eles participam das peças e a história se desenrola com base nessa participação. ¨A ideia é discutir as opressões que a gente vive na nossa sociedade e como a gente pode mudar isso”, diz Cássia. A atividade que as duas propuseram foi bem nesse estilo, e os espectadores-participantes vivenciaram situações de isolamento em hospital psiquiátrico. Foram vendados, conduzidos por corredores, receberam ordens duras, enfim, simularam uma série de situações pelas quais as pessoas internadas. Depois todo mundo fez uma reflexão sobre o que viveu ali e sobre a atenção à saúde mental em geral.

Temas fortes e delicados

Apesar da enorme alegria envolvida no evento, assuntos bem pesados circularam por lá. Um deles foi o do suicídio, que foi tema de uma roda de conversa. A gente não tinha muita ideia do quanto essa é uma questão forte no Rio Grande do Sul, e demos uma boa pesquisada na volta pra casa. O problema é bem grave: segundo o Ministério da Saúde, esse é o estado com a maior taxa de mortalidade por suicídio no Brasil, e são em média três mortes por dia. O mais assustador é que o número de casos entre jovens tem crescido continuamente, e as zonas rurais, extensas produtoras de fumo, são as mais impactadas. Isso não é por acaso: vários agrotóxicos (amplamente usados nas plantações) estão relacionados ao aumento da depressão.

Durante a roda, a pesquisadora Cláudia Cruz falou sobre sua atuação no Observatório do Suicídio, criado para lidar com quem já tentou cometer suicídio e com quem perdeu alguma pessoa próxima dessa maneira. Também foi importante a participação de Mauren Xavier, jornalista que trabalha no Correio do Povo e decidiu pesquisar o tema depois de perceber a quantidade de casos que chegavam  ao jornal, junto com os ‘casos de polícia’ da cidade. Embora não seja permitido dar esse tipo de notícia, ela sente falta de que haja uma forma responsável de lidar com o tema, inclusive na mídia.

Olhem para os lados!

Fátima Plein contou que três coisas foram importantes para o sucesso da mostra: o apoio da direção da escola,  o protagonismo dos residentes e a parceria com a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS). “Quando se tem um projeto que prima pela singularidade e pela solidariedade, as parcerias também são fraternas, não são tão burocráticas. Tivemos uma parceria desse tipo com a Universidade e foi maravilhoso”, disse. Alunos do curso de Administração – Sistemas e serviços em saúde participaram com muito empenho e também conversaram com a gente. A Tatiana, uma das alunas, resumiu muito bem o movimento: “A gente traz a universidade para dentro do evento, mas ao mesmo tempo leva o evento para dentro da universidade, e temos colegas de outros cursos que acabam se aproximando da saúde”.

Refletindo sobre a relação com a UERGS, Fátima Plein concluiu que parceria é a palavra-chave para outras instituições que também queriam montar a Saúde É Meu Lugar: “Se a gente quer dar visibilidade para o que acontece no território, precisa de parceiros. Temos mais parceiros do que imaginamos, tem mais gente querendo realizar coisas do que imaginamos. Só é preciso ouvir e olhar. Minha dica é olhar para os lados”, sugeriu a coordenadora. Para ela, essa foi uma “mostra-semente”: “Não é um evento que tem um ápice e acaba. Ela teve um ápice, mas foi um ápice de fertilidade, porque fizemos relações interessantes que vão ter desdobramentos também interessantes. Não é como se a mostra tivesse acabado e tudo bem, que legal. Não… A mostra acabou, e agora? Agora é que vai começar”. Lindo, não?

Nossos famosos brindes também circularam por lá e faltou brinde pra tanto relato! Sério, recebemos mais de 80 novas histórias durante a mostra. Imagina nossa alegria!  Os residentes e o pessoal da Educação Popular levaram pra casa troféus do Pinion, merecidíssimos 😉

Quem vem?

As edições estaduais são uma entre as três formas de mostra que o nosso projeto tem. As outras duas são a mostra online (que fica pra sempre no nosso site) e a mostra regional (vai ter uma em cada região, e já fizemos no Sudeste e no Sul).

A mostra no Rio Grande do Sul foi levada à frente pela ESP, mas qualquer pessoa pode organizar uma. Sim, você pode levar a SML pra sua cidade! É só ter vontade e falar com a gente 🙂 Se quiser conversar sobre isso, escreve por aqui.

E, se quiser mostrar suas histórias pro mundo, se inscreve aqui.

Até mais!

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