De olho na tradição

Pela quantidade de histórias que estão chegando pra gente do Espírito Santo, já dá pra ver que a nossa mostra estadual, que vai acontecer na semana que vem, vai bombar!

E uma coisa tem chamado muito a nossa atenção nesses relatos. É que vários deles falam de experiências que muita gente nem se liga que o SUS oferece: são as chamadas práticas integrativas e complementares, que incluem, por exemplo, a homeopatia, as plantas medicinais e a acupuntura. No meio das histórias capixabas, a gente já tem hortas comunitárias, fitoterapia, uma prática de automassagem tradicional oriental chamada do-in, o Grupo Jardim da Saúde, biodanza , auriculoterapia e ainda uma prática super diferente chamada treinamento perfumado.  E a lista tá crescendo, porque o pessoal não para de mandar relato 😉

Oficina do Curso ‘Horta da Saúde’ para implantação de uma horta urbana vertical em Vitória. Foto enviada pela Henriqueta do Sacramento

Uma pessoa que já mandou várias histórias (e tá animando a galera de Vitória para a nossa mostra!) é a Henriqueta do Sacramento , médica homeopata que começou a implantar algumas dessas práticas na cidade quando o SUS ainda engatinhava. Num dos relatos, ela conta que láááá atrás, em 1989, começou a tocar um projeto de horta junto a uma unidade de saúde.

Antes disso ela atuava no interior do estado, já trabalhando com os saberes tradicionais da comunidade e, em uma entrevista pra nossa equipe, contou um pouco mais sobre esse passado: “Lá no interior, trabalhávamos com duas comunidades e fazíamos o levantamento das plantas medicinais, do uso que as pessoas faziam… Isso tinha tudo a ver com as recomendações da OMS na época, de olhar para as comunidades tradicionais, ouvir as pessoas. A gente fazia rodas de bate-papo, vinham aquelas mulheres com um monte de mato nas mãos, explicando pra gente o que era cada coisa… Assim fomos conhecendo e acompanhando. Anotávamos tudo, ouvíamos, valorizávamos, registrávamos e acompanhávamos clinicamente as pessoas que faziam uso daquilo, pra examinar a melhora”, disse ela.

Hoje, Henriqueta ajuda a promover a construção de hortas comunitárias, além de assessorar oficinas em que profissionais e usuários aprendem a fazer xaropes, chás, repelentes, escaldapés… “Ajudo a dar apoio matricial e a ativar as equipes para esse trabalho. Fazemos oficinas nos territórios e ficamos junto às equipes até que elas se sintam seguras para caminhar sozinhas. Isso é feito com base na Educação Permanente em Saúde, com humanização, rodas de conversa, ouvindo, fazendo a comunidade participar, buscando dar autonomia para a população e para os profissionais. Quando percebemos que a comunidade está segura, que o projeto já está implantado, vamos saindo”.

Olha o repelente de citronela, feito em uma oficina do Grupo Jardim da Saúde! Foto enviada pela Adriana Geraldina da Silva

Embora as equipes de saúde sejam envolvidas como um todo, há sempre uma pessoa de referência, que ‘puxa’ as atividades, organiza tudo, chama a comunidade. “Em cada território de saúde, estabelecemos diálogo com aqueles profissionais que estão interessados em fazer isso. E essas pessoas de referência não são só médicos, pelo contrário. Tem unidade de saúde em que a referência é a agente comunitária de saúde, tem unidade em que é a psicóloga… Temos um local em que a referência é uma professora de educação física!”, diz, contando que o trabalho é feito sempre em conjunto com outros setores, como escolas, creches e centros de referência de assistência social.

Tradição e SUS
Henriqueta disse pra gente que a discussão no Brasil para incluir essas práticas como atividades da saúde pública é antiga, e que já no fim dos anos 1970, depois da declaração de Alma Ata, havia grupos que promoviam esse debate, tanto nas universidades como nos serviços. A discussão ganhou força depois com 8a Conferência Nacional de Saúde (em 1986) e com os debates da Assembleia Constituinte, que fez a mais recente constituição do Brasil, promulgada em 1988.

Em 2006, foram publicadas a Política Nacional de Plantas Medicinais e a Política de Práticas Integrativas e Complementares. “Em Vitória, institucionalizamos nossa Política de Plantas Medicinais em 2009, depois de uma grande construção coletiva com os profissionais de saúde dos territórios, com farmacêuticos, com usuários, com as pastorais de saúde. No ano passado, finalizamos o diagnóstico das potencialidades dessas práticas no SUS na cidade, e vimos a possibilidade da ênfase na fitoterapia – que já começamos há muitos anos e já é bem forte aqui – e da homeopatia e acupuntura”, diz Henriqueta.

Ela acredita que o SUS é o espaço ideal para o desenvolvimento desse tipo de práticas. “Desde a minha formação em medicina, vi que a saúde pública – ainda nem havia SUS! – era o lugar que possibilitava as construções coletivas, incluindo a comunidade no cuidado à saúde. Não era só atender, como se atende de forma isolada, em um consultório. No SUS a gente tem equipes multiprofissionais, tem enfermeiros, ACS, técnicos de enfermagem, assistentes sociais, farmacêuticos, vários trabalhadores que cuidam da saúde, em corresponsabilidade. Escolhi uma especialidade – a homeopatia – que busca ver a pessoa como um todo, e a gente vê, no SUS, que não damos conta dessa integralidade sozinhos. Não é um trabalho isolado, é o trabalho de uma equipe e da comunidade, dos conselhos, todo mundo construindo junto em defesa de uma saúde pública de qualidade”, disse ela.

O dia em que as guardiãs das hortas urbanas comunitárias de Vitória foram visitar uma propriedade orgânica. Mais uma foto enviada pela Henriqueta

Vocês já viram que este ano foi lançado um curso de plantas medicinais online  (voltado pra ACS, mas aberto pra qualquer pessoa)? Incrível, né? A Henriqueta disse que tem muuuuuuita, muita coisa legal nesse sentido pelo Brasil afora. Se você conhece alguma dessas experiências, conta pra gente! Vamos adorar conhecer e divulgar 🙂

E, se você é de Vitória, não esquece: dia 16 estaremos por aí, levando histórias e prontos pra ouvir muitas outras. Até!

  • Eduarda Borges

    Temos um projeto de Horta Comunitária no Centro Histórico de Vitória chamado Horta Comunitária Quintal na Cidade.
    A parceria com a Secretaria Municipal de Saúde através do do Projeto Hortas da Saúde foi fundamental para o nosso trabalho. Dra. Henriqueta nos apoiou desde o inicio e é uma das nossas maiores parceiras.

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