Novas práticas, alguns dilemas

Quando soubemos que o Ministério da Saúde havia anunciado a inclusão de dez novas práticas integrativas e complementares no SUS, lembramos logo da homeopata Henriqueta do Sacramento, que já contou pra gente (pela mostra virtual, por aqui e ao vivo, quando estivemos no Espírito Santo) sobre várias atividades que realiza em Vitória nesse sentido. E, realmente, tem um monte de relatos legais nesse sentido na nossa mostra.

Então chamamos a Henriqueta de novo pra uma conversa 😉 Ela recebeu a notícia em primeira mão, porque estava no evento em que o ministro Ricardo Barros fez o anúncio. Foi o primeiro Congresso Internacional de Práticas Integrativas e Complementares e Saúde Pública, no Rio de Janeiro.

Ela está bastante animada com o que viu. “Tinha dezenas de palestrantes do mundo todo e mais de três mil participantes, e foi uma demonstração da união de profissionais de toda parte do Brasil, cada um com sua prática e defendendo o SUS”, disse.

Quer prevenção ou não quer?

Lá, o ministro disse: Essas práticas são investimento em prevenção à saúde para evitar que as pessoas fiquem doentes. Precisamos continuar caminhando em direção à promoção da saúde em vez de cuidar apenas de quem fica doente”. Muito bem. Mas o que deixa a gente aqui no SML beeem pensativo é que, afinal, estamos vendo durante toda a gestão dele justamente o oposto: o direcionamento da ESF para uma perspectiva muito mais biomédica, mais centrada na doença e menos na saúde. Falamos muito disso aqui quando discutimos a nova PNAB e as várias questões que têm se colocado para o trabalho de agentes comunitários (tem posts como esse, esse e esse).

Bom. Barros também tem a intenção de criar uma secretaria nacional de práticas integrativas e complementares, o que, segundo Henriqueta, pode ser ótimo, mas não foram dadas dicas de como vai ser viabilizado. “A parte do financiamento para estimular e fazer a formação também precisa ser mais bem discutida. Hoje cada município conta com os profissionais que já têm e que, por vontade própria, fazem os cursos. Queremos conversar sobre isso, que é o ponto mais importante”, completou ela.

Contradição

Quem não está nada feliz é o Conselho Federal de Medicina, que já se posicionou contra em várias entrevistas. “O CFM só é favorável àquelas práticas que são oferecidas por médicos”, avalia Henriqueta – que é, ela própria, médica, completando: “E o crescimento das práticas integrativas no Brasil está relacionado à figura de terapeutas não-médicos. No Brasil é uma profissão difícil até para contratar trabalhadores. No SUS, por exemplo, não há a profissão de terapeuta. Vejo muito a medida como uma forma de inserir essa figura”.

Achamos que ela deve ter razão. Tentamos muito falar com algum representante do CFM (por isso esse post demorou tanto pra sair!), mas eles não tiveram agenda para nos atender, então ficamos com uma dúvida bem pertinente. A principal crítica que o Conselho apresenta é que essas práticas não têm respaldo em evidências científicas – nem essas, nem a maior parte das outras tantas que já eram aceitas e oferecidas no SUS.

Em entrevistas (como essa), o vice-presidente do Conselho Mauro Ribeiro afirma que, de todas as práticas integrativas, só duas – acupuntura e homeopatia – são aceitáveis. E são justamente as únicas oferecidas exclusivamente por médicos. Porém, embora haja estudos avaliando o benefício delas, as revisões sistemáticas dizem que os estudos são inconclusivos. Revisões sistemáticas são pesquisas muito amplas feitas com tudo os estudos que já foram publicados sobre determinado tema, para decidir se aquilo tem ou não embasamento científico de acordo com determinados critérios. Vários pesquisadores dizem que isso não quer dizer que as práticas integrativas não funcionem, mas, pela própria forma delas, é difícil mesmo atender a critérios estritamente científicos na pesquisa. Um exemplo: nesses testes, pra avaliar se a melhora na saúde não é por causa do efeito placebo, é preciso que nem o terapeuta e nem o paciente saibam que estão usando o ‘remédio’. E como fazer isso com, tipo, yoga? Difícil, né? Enfim, o fato é que essas duas práticas aceitas pelo CFM também não são baseadas em evidências, de acordo com os critérios da Medicina Baseada em Evidências. Ou seja, o CFM se contradiz.

Henriqueta diz que, de todo modo, é preciso mesmo avaliar as evidências em relação a essas práticas e, mais que isso, ter dados sobre o quanto as que já existem têm impactado (e quanto as novas vão impactar) a saúde e o bem estar dos usuários no SUS. “Temos que ler sobre cada uma delas, conhecer melhor, avaliar o custo-benefício, compreender as possibilidades, conversar com os gestores. E também socializar com a comunidade, dentro dos conselhos de saúde, para que possam reivindicar em seus municípios. Estamos vivendo o processo de conhecer tudo isso e tentar um consenso entre gestores e usuários”, falou.

Outra preocupação é a formação. “Isso é muito indefinido. Que capacitação estão fazendo e farão? Qual a carga horária? Tem que ser uma formação acadêmica, uma graduação de quatro anos, como na Europa? Como tem funcionado no Brasil? Temos que avaliar isso também”.

Vamos ver no que dá.

Uma listas  com as novas práticas está aqui.

E você? Tem alguma experiência relacionada a isso? Conta pra gente!

Site Footer

Sliding Sidebar

Últimas Atualizações

Últimas do Instagram

Nossos Canais